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No país das fashionistas: entrevista exclusiva com Alice Ferraz

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03 / 05/ 2017 em: 

 Conexão MargotLifestyle ; By Marcela Brown

Tenho mais de uma década de jornalismo nas costas, mas confesso que gelei no momento em que eu estava prestes a entrevistar um dos nomes mais importantes e influentes dos negócios de moda no Brasil e no mundo. Ficar frente a frente com um ícone da moda requer, ao menos para mim, um tanto de coragem, para não dizer cara de pau. Diante de um oráculo que de tendência tudo sabe, que de estilo tudo vê, não caberia a mim discernir com louvor o dress code da ocasião. Fiquei tensa.

 

Embora eu tenha empreendido em uma revista digital de moda e lifestyle, não sou, nem nunca pretendi ser, uma fashionista. O único “ista” que coube em meu currículo é o de jornalista – não sei se por sina ou culpa própria, mas o fato é que… e agora? Decidi, no lugar de me montar como um carro alegórico de tendências tão somente para impressionar minha entrevistada, vestir-me de Marcela mesmo, que gosta de um pretinho básico, tênis e trança para o lado, mas não abre mão de rímel, blush, batom e meia-calça com pernas inquietas.

Entrevista exclusiva com Alice Ferraz

Foto: Margot Magazine/Especial 

 

E foi assim, sendo eu mesma, que sentei ao lado de Alice Ferraz, uma verdadeira expert desse universo tão fascinante chamado moda, em seu look nada óbvio e olhar menos ainda. Alguém que soube transpor com excelência, ao longo de mais de duas décadas, todos os fios que conduzem ao sucesso no fashion business, sem se deixar parar no tempo – pelo contrário, usando essa ferramenta sem parcimônias e plenamente ao seu favor. Não seria de estranhar que seu recém lançado livro Moda à Brasileira – um guia imprescindível para os novos tempos da moda seja agraciado com prefácio de ninguém menos que Glória Kalil e contemple o princípio de que a brasilidade feminina pode – e deve – andar de mãos dadas com a moda, valorizando nossas origens, nossas francas vantagens e incontáveis predicados.

Entrevista exclusiva com Alice Ferraz

Foto: João Viegas/Divulgação

 

E, sempre a navegar sobre águas nada plácidas, isto é, a auto-estima e auto-confiança da mulher brasileira, esta visionária de marketing digital, à frente do F*hits, a primeira plataforma de influenciadores digitais do Brasil,  respondeu à entrevista exclusiva da Margot Magazine com olho no olho, seriedade e serenidade.

Entrevista exclusiva com Alice Ferraz

Foto: Divulgação

 

Fui acolhida por palavras, ensinamentos, verdades. Tanto faz se eu vestia Gucci ou um achadinho de brechó. Estilo é bem mais que isso. Não me percebi julgada. Pelo oposto: me percebi recebendo atenção, tempo e respeito. Ao chegar em casa, devorei de forma incansável meu exemplar autografado. Quisera tê-lo lido antes deste encontro: certamente me vislumbraria mais segura para encarar o temido desafio. Mas tudo ficou fácil quando senti, já na primeira resposta, que, mais que uma fera dos negócios de moda, Alice Ferraz é gente fina, elegante e sincera. Leia na íntegra entrevista com a expert, realizada no Barra Shopping Sul durante o F*hits Fahion Day na capital gaúcha.

 

Margot Magazine – Você já soma mais de duas décadas no mercado de moda, acompanhando muitos ciclos. Você percebe que a “Era das Mídias Sociais” tornou esses ciclos mais instantâneos?

 

Alice Ferraz – Super, super… Eu acho que antes era mais fácil, embora talvez fosse menos divertido, né? Primeiro a gente tinha duas temporadas, que era o primavera-verão e o outono inverno, então era uma coisa bem definida, depois eram quatro estações, depois seis estações… Agora a gente quer novidade o tempo todo nas lojas e a gente quer novidade porque a gente vê novidade nas mídias sociais, então nosso timing mudou. Eu sempre fui apaixonada por moda e eu lembro de mim na adolescência comprando as revistas do mês… a Cláudia, a Nova, a Vogue, a Elle (quando a Elle chegou no Brasil, porque antes só tinha na França). Então, a gente esperava, era mensal. Agora é diário, agora quantas vezes por dia nós olhamos blogs, sites, notícias. A internet realmente trouxe essa agilidade e a moda está se adaptando a ela.

 

Esse imediatismo nos leva a consumir mais on-line? Isto é, eu vejo aquela saia na instagramer da vez e corro para busca-la nos e-commerces?

 

Alice – Não necessariamente o comprar o on-line. Você pode ir ao shopping, porque você pode querer comprar pessoalmente. A coisa do on-line, tem gente que fala: ah, mas eu não tenho e-commerce, por isso que eu não anuncio on-line, ou por isso que eu não invisto em blogueira. É como você falar que você não anunciaria na televisão porque não tem clique para comprar por ali. Se você anunciar na televisão, você vai estar lá, é uma mídia. A blogueira também é uma mídia, claro que se você tivesse e-commerce também seria muito bom, mas a mídia on-line é sim, uma mídia, e, assim como se você olhar na televisão um determinado produto e tiver vontade de comprar, você pode ir na loja ou comprar on-line, mas você não clica na tevê para comprar, então por que continuaria fazendo comercial de televisão? Não faz muito sentido isso de investir on-line somente quando se tem e-commerce.

Entrevista exclusiva com Alice Ferraz

Foto: F*hits/Divulgação

 

Desde 2013 você é eleita anualmente como uma das pessoas universo da moda mais influentes do mundo pelo Business of Fashion. A que você atribui todo esse sucesso como fashion influencer e empresária da indústria fashion e criativa?

 

Alice – Eu acho que é muito trabalho consistente durante muito tempo. Se você me perguntar: mas você faz look do dia? Eu faço look do dia, porque me visto assim e as pessoas gostam de ver e se inspirar. Mas não foi sempre assim, né? Sabemos que não foi isso que aconteceu, assim, de repente. Primeiro veio o trabalho, a reputação e a base. Eu sempre usei roupas que as pessoas gostavam, quando eu tinha 25, 26, 27 anos, mas era diferente, não tinha internet. Se você se vestia bem saia lá, em colunas sociais, saía numa Vogue, e agora você sai também nas mídias sociais. Então eu acho que é muito trabalho durante muito tempo. Com consistência, com estudo, não tem fórmula pronta. No meu livro, inclusive, aparecem várias formiguinhas que ilustram os destaques dos capítulos por que eu comparo muito o meu trabalho com o da formiga, que é um bichinho trabalhador e perseverante, né? Eu não consigo saber como uma pessoa faz para ter sucesso sem ser assim. Então, é muito trabalho, moda com conteúdo, e com alma, com qualidade. E, claro, moda brasileira.

 

O que te moveu em direção à moda e como enxergou nela tantas possibilidades de atuação?

 

Alice – Eu sempre quis trabalhar com moda, aos 26 anos eu decidi que realmente queria trabalhar com isso, foi um pouco tarde até, não foi aquela coisa de que com 15 anos eu já sabia que era isso. Eu sempre gostei de moda mas não imaginava que isso pudesse ser um trabalho, porque não existia faculdade de moda e eu também não queria ser estilista. Então qual é a outra área? Comecei a destrinchar áreas onde eu poderia trabalhar com moda e a comunicação foi a área que me encantou porque naturalmente eu já tenho facilidade para me comunicar, essa facilidade eu já tinha. Então eu comecei a vislumbrar como trabalhar com isso, como você ter um valor para que as empresas paguem para você falar. Porque uma coisa é você falar e gostar de falar e outra coisa é as pessoas pagarem você para falar. É completamente diferente.

 

Mas você soube acompanhar as mudanças e ser pioneira em um novo nicho de mercado. De onde surgiu o faro visionário?

 

Alice – Aí entra a questão da criatividade. Porque depois da internet eu poderia ter ficado para trás, tem pessoas da minha geração que foram ficando. Eu não sei, eu acho que é um pouco de inquietação, como um defeito que vira qualidade, ou que pode ser visto como qualidade. Eu sou uma pessoa inquieta com relação à vida. Eu tenho vontades e não consigo ficar muito na minha caixinha. Essa história do “cada um no seu quadrado acho que não funcionou muito comigo”, então eu vou tendo ideias e vou testando. Eu falo que a F*Hits foi uma ideia, mas eu já tive 500 ideias. Um monte dá errado, mas eu tento. Eu tenho mil ideias e aí uma dá certo, na verdade algumas dão certo. Eu não acho a F*Hits uma ideia muito diferente de outras que eu já tive e que eu considero tão boas quanto, mas é uma questão de ficar tentando, tentando e tentando. Tem um livro que chama Os Originais, é um best-seller que acabou de sair, então eu estava lendo essa semana e é inacreditável, porque ele fala que os inventores, a maior parte do que eles fazem ninguém reconhece. Então de repente eles fazem uma, duas, três coisas que as pessoas reconhecem. Ou os grandes músicos, por exemplo, eles fazem muitas músicas que ninguém gosta. Dizem que a música que o Beethoven mais gostava era a que menos fez sucesso. Então acho que é quantidade. Trabalho com quantidade. Eu fico pensando:se você tem uma grande ideia que dá certo, parabéns! Você vê os escultores, grandes artistas, é a mesma lógica.

 

Mas então, por exemplo, você cria uma grande marca fashion. Significa que você vai poder vender o que quiser, quando ela já estiver consolidada?

 

Alice – Sim, mas normalmente isso acontece tão depois… tem muito trabalho por trás disso. As pessoas pensam: aconteceu. Eu não vejo isso acontecer de jeito fácil em lugar nenhum. Mesmo quando me dizem, mas e o ganhador do Big Brother, dinheiro fácil. Eu não acho fácil. A pessoa ficou lá aguentando três meses. Acho que eu seria expulsa no primeiro dia (risos). Isso é uma certeza. Mesmo em um Big Brother da vida, a pessoa tem que batalhar. Não é fácil, não é simples, o sucesso passa por desafios. Tudo é um desafio.

Entrevista exclusiva com Alice Ferraz

Foto: Margot Magazine/Especial

 

Seu livro veio para romper com algumas regras e desmitificar a moda. De que forma você pretende ajudar mulheres a encontrarem confiança no vestir-se e na aceitação do corpo através dele?

 

Alice – O livro tem muito a ver com empoderamento feminino, muito mais que uma moda pra fashionista ou pro nicho. Eu não quis escrever de nós para nós, eu quis escrever para outras pessoas. É muito sobre a moda brasileira porque a gente mora no Brasil, então não adianta falar sobre moda internacional. É a moda brasileira ajudando a mulher a se colocar. Você não precisa estar vestindo uma camisa vitoriana da Dior para estar bem vestida. Você pode ter a tendência vitoriana mas do jeito que a gente consegue usar. E usar essa moda para criar um moodboard e conseguir identificar quem você é através dele. Através da moda você vai falar quem você é, vai usar as coisas ao seu favor e não ficar refém da moda. As pessoas falam “ai, eu não consigo combinar”. Não é assim, todo mundo consegue, basta estudar um pouco. Com um pouco de esforço. As pessoas acham que tem que nascer com talento, com um dom. Eu escutava muito isso das minhas musas, elas diziam que eu tinha nascido com isso. Eu não nasci com isso e diria que algumas pessoas até podem nascer com o dom, mas 95% é o trabalho, o estudo.

 

É possível se vestir bem com pouco dinheiro?

 

Alice – É superpossível. Aliás, é cada vez mais possível e isso é maravilhoso. Eu falo que fast fashion não é fast food. Você pode ter um olhar devagar, um olhar com delicadeza dentro de um fast fashion. Porque o fast fashion está ali, com 500 mil coisas. Agora como você consegue pegar essa moda para você? Se você chegar como um morto de fome e sair comprando tudo o que vê pela frente só porque é barato você vai acabar não usando nada. Você pode ter um olhar slow dentro de uma loja que é fast, porque fast fashion só quer dizer que é mais acessível e não que você tem que sair comprando feito louca, como se não tivesse mais nada na vida.

Entrevista exclusiva com Alice Ferraz

Foto: Vini Dalla Rosa/Divulgação 

 

Você considera que a moda afetiva está bem representada em seu livro?

 

Alice –  Sim. Eu sou muito apaixonada pela maneira como as pessoas se expressam, então eu acho que a moda ela tem a ver com expressão. Por isso que se a gente gosta das coisas da gente do tipo “ai eu gosto tanto desse brinco, esse anel me diz tantas coisas”, tem amor nisso e a moda transita nisso. Eu conheço muita gente que trabalha com moda mas não ama moda. Até algumas modelos internacionais lindas quando estão nas horas vagas, elas não se vestem na moda, é muito doido isso. Mas eu acredito que tem uma grande parcela que gosta e leva isso a sério, afetivamente falando.

 

Para terminar, cite três mulheres que representam a moda em toda a sua essência para você, no Brasil ou no mundo.

 

Alice – A Glória Khalil, ela escreveu meu prefácio e é muito referência, porque ela não ficou caricata, é uma mulher da geração dela que se veste bem. Se ela estivesse aqui ela conosco seria uma mulher como nós, ela não se tornou um personagem. Eu me considero uma feminista (e meu marido também) e estive recentemente em uma exposição sobre a Yoko Ono e eu poderia citar ela também, para mim ela foi uma grande personalidade neste sentido e que também conseguiu agregar moda, eu fiquei completamente apaixonada pelo que eu vi, eu nunca tinha estado em uma exposição dela. E eu citaria também, da minha geração, a Stella McCartney, ela podia não ter feito nada, pois é filha do Paul McCartney. Mas ela foi se provando na moda, quando ela começou na moda ela não foi reconhecida, as pessoas chegaram a duvidar dela, mas ela conseguiu esse reconhecimento e ela não usa pele, o que é fantástico. Eu já cheguei em uma loja de departamento em Londres e não tinha Stella porque é um lugar que vende pele. Imagina você chegar nesse nível, de não vender sua marca em tal lugar porque vende pele. É lindo, né? Eu tiro meu chapéu pra ela.

 



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