Acessar versão desktop

MODA

ACESSÓRIO

BEAUTÉ

LIFESTYLE

BLOGS

MARGOT STREET

Síndrome do coelho de Alice: estou atrasada, terrivelmente atrasada!

Instagram

28 / 06/ 2016: 

 By Marcela Brown

estou atrasada 1

Sempre atrasada: Marcela Brown sendo Alice

 

Tenho fama de retardatária. Sempre a tive, receio que sempre a terei. Sou um arremedo de coelho da Alice, modo desespero ativado full time, olhando o relógio freneticamente e gritando: “estou atrasada, muito atrasada”. Já que nem Freud explica, deixa que eu fico com o serviço sujo: a sina para o atraso esteve arraigada em mim desde o nascimento. Pobre dona Helena, que, no ápice da juventude – aos 19 anos creio que ela teria preferido uma calorosa reunião dançante no Bom Fim a uma gélida sala hospitalar que antecede os louros da maternidade (jamais haverei de questioná-la sobre isso, diga-se) –, passou algumas horas de martírio, em franco trabalho de parto e sem sinal wi-fi para que as contrações passassem mais depressa. Atrasada de antemão na vida que me espreitava lá fora, atrapalhei-me no ato da minha chegada epifânica ao mundo e acabei emaranhada no cordão umbilical. Tive que vir à luz através de uma cesariana feita às pressas e minha progenitora, que já não estava munida de wi-fi, viu-se também sem anestesia adequada para receber sua primeira filha (sim, ela encorajou-se a continuar perpetuando a espécie).

 

Ainda no patamar da minha estreia biológica permeada de desventuras umbilicais e altas doses de morfina, eu diria que meu mapeamento de signos também é pouco aprazível e a combinação enfadonha de astros e estrelas que me coube reverbera em minha incapacidade de seguir a rotina como um ser humano normal. Fui astrologicamente comprometida, herdando a inquietude do sol em gêmeos, o imediatismo da lua em áries e a indecisão do ascendente em libra. Na prática: eu quero estar em muitos lugares, porém em todos eles ao mesmo tempo e, na ânsia de decidir, não chego a lugar algum. Ou melhor, chego em todos, mas sempre atrasada. Até porque, não raro, algo no trajeto desvia minha atenção.

 

estou atrasada 3

Go crazy: Marcela incorporando a síndrome do coelho da Alice

 

Talvez se eu pertencesse a outra época as coisas seriam diferentes (e não me refiro apenas ao combo astrológico). É que dos anos 1980 pra cá, tudo ficou cada vez mais apressado. Lembro com nostalgia despretensiosa da festa que a gente fazia quando o meu pai conseguia um videocassete emprestado e alugava uma fita para todo o final de semana. O divisor das águas mesmo foi quando ele nos levou ao trabalho dele para revelar a assombrosa tecnologia do fax. Eu ainda era criança, gostava de escrever em papel de carta com cheirinho, colar figurinhas, selar o envelope e depositar nos correios para minhas amigas da escola. O mundo havia mudado nas vias de fato e a partir do meu primeiro contato com envio de fax tudo foi ficando tão mais veloz que quando dei por mim já havíamos alcançado a era do snap chat, símbolo por excelência do fetiche instantâneo que move este século bisonho. Confesso que me atrasei, como sempre. Cheguei no facebook quando a febre do momento estava a cargo do instagram, procrastinadora nata que sou.

 

Dia desses, meu filho perguntou se meu pai também “confiscava” o tablet quando eu me comportava mal. Respondi que o dispositivo em questão sequer existiu na minha infância. E o Google, mãe? Não. Netflix? Hein? Espantado, ele pensou, pensou. Do alto dos seus quase 5 anos de idade vislumbrava o nada com olhinhos curiosos, tentando organizar tantas ideias abstratas. Então o baixinho questionou com seriedade: mãe, quando tu era criança na tua casa também não tinha paredes?

 

estou atrasada 2

Tempos agitados: nem o coelho da Alice aguenta mais tanta pressão

 

São tempos apressados, furiosos, ansiosos, frenéticos. Seria chover no molhado dizer que ou corremos atrás da máquina ou ela nos devora. Tenho um ritmo estranho. É acelerado, porém um acelerado angustiante, como se eu já estivesse em velocidade máxima e mesmo assim algum infeliz buzinasse atrás de mim mandando eu me apressar ainda mais. E, pensando bem, é lamentável, mas é isso o que muitas vezes faço com meu menino, mesmo sendo ele uma criança contemplativa, que gosta de ver a fila de formiguinhas levando sua comidinha pela calçada, que nutre paixão por contabilizar as folhas amarelas que caíram das árvores da nossa rua durante o outono. “Buzino” atrás dele, apressando os passos do pequeno como se nosso caminho fosse menos importante que a chegada. Sem perceber, o acúmulo de funções às quais, especialmente nós, mulheres, estamos submetidas, não nos permite apreciar o ciclo natural de todas as coisas no conturbado dia-a-dia. Não é por menos que as crianças desta geração querem tudo para ontem: elas são os espelhos desse estilo de vida go crazy que se leva.

 

Desculpem, não era disso que eu estava falando: eu dizia que estou sempre atrasada, muito atrasada, terrivelmente atrasada. Na minha infância nossa casa tinha paredes, senhores. E elas nos bastavam porque a família estava completa dentro delas. Não havia smart phone mas existia pausa para respirar, conversar, brincar. Isso sim era smart. Sendo bem sincera? Quanto mais tento ser parte deste contexto de urgências incessantes, mais alheia me sinto em relação a ele. Aliás, segura essa: descobri que quanto maior a minha pressa, tanto mais atrasada estarei.

 

Fotos: Néia Dutra/ Acervo Margot Magazine

 

 



SEJA NOSSA AMIGA!

FAÇA O CADASTRO NA TUA REVISTA DIGITAL FAVORITA E FIQUE POR DENTRO DE TODAS AS NOVIDADES E SORTEIOS!


Instagram

Comentários

20

Comente

20 comentários em “Síndrome do coelho de Alice: estou atrasada, terrivelmente atrasada!”

    1. Marcela Brown disse:

      Pois é Tina, só não disse mais porque eu estava com muita pressa… kkkk… Mas é isso, no meio de tanta loucura deixamos legado da pressa para os nossos pequenos 🙁

  1. Maria Helena Rodrigues disse:

    Impecável o texto da dona atrasada Marcela.
    Maravilhoso. Uma delicia de leitura.
    Aquela que a gente sente vontade de ler devagarinho para não acabar logo.
    Amei!
    Vou copiar no meu facebook o link.
    Bjo

    1. Marcela Brown disse:

      Obrigada, Maria Helena! Eu estava bem atrasada quando escrevi, mas que bom que gostou 😉
      Beijos!!!

  2. helena disse:

    Muito bom , muito engraçado, e muito bem escrito.
    Linguagem interativa, fácil e ao mesmo tempo rebuscada.
    Poucas vezes vi tanta mistura ficar bem resolvida ,

    1. Marcela Brown disse:

      Obrigada, dona Helena! Beijosss!

  3. Luiza Brown disse:

    Texto incrível!

    Me fez parar para pensar porque eu também estou sempre atrasada. Pensei que era o tempo curto demais sempre, mas acho que é genética mesmo.

    Ou não. Mas obrigada pela dica!

    1. Marcela Brown disse:

      Certamente, a genética pode interferir às vezes 😛

  4. Janice Silva disse:

    Identificação total!

  5. Arremedo de coelho da Alice…. hahaha, demais!

  6. Paulo Bassi disse:

    Prezada Marcela.

    Belo texto o que me permite a seguinte analise:

    Sugiro que comece a levar a criança em aniversários sem pula-pula, sem trepa-trepa, sem piscina de bolinhas etc., e mais em em aniversários com tesouras para recortar, colas, massinhas, folha de escrever, bolas coloridas, lapis para colorir etc.

    Paulo Bassi.

    1. Marcela Brown disse:

      Ah, mas um pula-pula infantil nunca é demais 😛

  7. Maria Cecília Braun disse:

    Marcela! Excelente escrita. Fico pensando depois desta leitura se ainda é possível contemplar os ciclos da natureza, as insignicancias de que fala o poeta Manuel de Barros.

    1. Marcela Brown disse:

      Verdade, Cecília! Que tal uma pausa para contemplar insignificâncias? 🙂

  8. Adorei, Ma!
    E me identifiquei um pouco, certamente (só não com os teus astros, que combinação difícil, hein)

  9. JANICE piasson disse:

    Se te conforma, não está sozinha!

    Feliz é aquele que consegue viver em slow motion de vez em quando:)

    Texto impecável ( como sempre).

    Beijos

  10. Raquel H. disse:

    Texto brilhante e bem humorado… me identifiquei muito!
    “Fui astrologicamente comprometida, herdando a inquietude do sol em gêmeos, o imediatismo da lua em áries e a indecisão do ascendente em libra. Na prática: eu quero estar em muitos lugares, porém em todos eles ao mesmo tempo e, na ânsia de decidir, não chego a lugar algum…”
    Parabéns Marcela!

  11. Fabiano disse:

    Muito bom texto!

Você vai gostar também:

  • Vidaloka, eu?Vidaloka, eu? – Manheeeeê, quero meu Nescau. – Bom dia pra ti também, meu filho.   O despertador, como você bem percebeu, acaba de tocar com sucesso. São 7h30 da […]
  • A bela resposta de Bela GilA bela resposta de Bela Gil Em geral, televisão me deprime. Programas de culinária e realitys de chefs, em especial, têm efeito altamente usurpador sobre meu estado de espírito. Sentada no sofá, […]
  • E aí, como vai a sua rede social? Papo de botequim. Duas jovens mulheres conversavam despreocupada e compulsivamente em um boteco. Na sexta caneca de chope, ambas tropeçam em um assunto sobre o qual evitam falar, já […]

topo

NÃO, OBRIGADO.