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Para além do espelho negro: série Black Mirror vai virar livro

14 / 06/ 2017

 By Marcela Brown

Fãs convictos da série mais aflitiva da Netflix agora têm mais do que a confirmação da quarta temporada para aguardar apreensivamente: na contracorrente dos livros que inspiram filmes, novelas ou seriados, Black Mirror vai virar livro. O anúncio oficial teria sido feito ontem pela editora britânica Penguin Random House, que revelou ainda que o criador da série, Charlie Brooker, será o editor dos três volumes escritos por diferentes autores e com contos motivados pelos episódios cuja tônica é o mal estar coletivo ocasionado pelas redes sociais e outras tecnologias.

Série Black Mirror vai virar livro

Nós, os conectados, como meros espectadores da neurose do século

 

A ideia não é reproduzir para o universo literário as temporadas já exibidas na plataforma de streaming, mas, ao que tudo indica, fazer valer o percurso inverso das telas para as páginas de livro através de textos que, a exemplo da série antológica, refletem esse processo de “avatarização da vida” em um futuro mais próximo do que pretende nossa vã capacidade de discernir os limites da nossa autoexposição e constante necessidade de aprovação. Cruel? Em fevereiro de 2018, data prevista para o lançamento da obra, haveremos de saber.

 

Um soco na mente humana, para dizer o mínimo, as duas primeiras temporadas de Black Mirror foram produzidas pelo Channel 4, mas desde a terceira temporada é a Netflix quem comanda o espetáculo e a promessa é que a quarta temporada venha com ainda mais fôlego. Com estreia prevista para final deste ano de 2017, reza a lenda que serão 12 episódios e que um deles será dirigido por ninguém menos que Jodie Foster.

Série Black Mirror vai virar livro

Série Black Mirror vai virar livro

Avatarização da vida em doses sombrias de choques de realidade

 

Não é de estranhar que a série britânica tenha ultrapassado a barreira das produções Netflix para se transformar em literatura. É impossível passar incólume pelos dissonantes episódios e provocações de Black Mirror. É como se alguém, em outra dimensão do terceiro milênio, estivesse a espreitar a humanidade e surgisse em forma de ficção científica para nos dizer:

 

– Helloooo! Para que tá ficando feio.

 

Talvez o modo mais singelo de apreender o que está por trás desta síndrome tecnológica trazida de forma tão inquietante pela sátira, seja entendendo a ideia de que o reflexo no espelho comum representa a alma, nossa personalidade plenamente consciente. Nosso reflexo no espelho tem o poder de nos apresentar uma imagem integral de nós mesmos: através dele, a refração da luz permite que possamos nos conhecer e nos reconhecer em alguma medida.

Série Black Mirror vai virar livro

Série Black Mirror vai virar livro

Protagonismo tecnológico ou mentes programadas?

 

Já o espelho negro é o justo oposto deste reflexo natural. Por não haver nada além de escuridão neste espelho preto, igualmente não há nele condição para o conhecimento, símbolo por excelência da luz: o black mirror não reflete nada, é a ausência plena da realidade sobre nós mesmos, é a difusão da verdade por uma matéria negra e escura. É a prevalência do ter sobre o ser. Do aparecer sobre o viver.

 

No episódio Nosedive (Queda Livre na versão brasileira), primeiro da última temporada, tem como figura central uma mulher de personalidade histriônica, desesperada para ser destacada pelas mídias sociais, disposta a arriscar todas as possibilidades que estiverem ao seu alcance para elevar sua avaliação em um aplicativo que enxerga no ser humano a síntese logarítmica das notas a ele atribuído. Glossário: assim, grosseiramente falando, pessoas histriônicas são aquelas que apresentam carência anormal de atenção, agem de modo comportamental altamente dramático ou têm mania protestos excessivos – qualquer semelhança com seu amigo do facebook pode não ser mera coincidência.

Série Black Mirror vai virar livro

Série Black Mirror vai virar livro

Doença do século: no episódio Queda Livre, vale tudo pela aceitação nas redes sociais 

 

Apesar do contexto futurista sugerido nos 13 episódios já exibidos, Black Mirror nada mais retrata que nosso presente singular e nosso vício pela conectividade sem limites que vêm adormecendo uma sociedade inteira a médio prazo – a antologia da Netflix apenas nos traduz de forma ainda mais visionária, nervosa, enegrecida. Portanto, não engane-se: Black Mirror é, sim, senhoras e senhores, o paradigma perfeito desta neurose milenar deflagrada em uma coletividade adoecida pelo sintoma mais patético deste milênio: o da tecnologia a serviço da estupidez.

 

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Imagens: Netflix/Divulgação

 

Saiba por que os emojis vão dominar o mundo

31 / 03/ 2017

 By Marcela Brown

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Aqueles que possuem o desprazer de conversar comigo via whats app sabem que nutro hábito incontrolável de enviar emojis, por vezes sem sentido e fora de contexto – hábito este, diga-se, que quase me logrou o banimento de um dos meus 158 grupos de zápi-zápi. Seria hipocrisia não admitir que me divirto às custas do não entendimento alheio. Minha mãe pergunta se eu estou bem e eu respondo com o cavalinho. Meu pai diz que vai ter churras no domingo e mando prontamente o pintinho saindo da casca do ovo ou algum símbolo aleatório na temática natureza.

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Alguns contatos adaptaram-se à minha comunicação medíocre e regozijam-se em me responder à altura, hora com a carinha de porquinho ou outro bicho qualquer, hora com o pinheiro natalino nada atemporal (tenho queda específica por emojis fora de época, isso choca as pessoas: quem me envia o rosto do Papai Noel no meio do ano tem o meu respeito).

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Vez por outra, quando o assunto requer maior aprofundamento teórico, perco um par de minutos redigindo uma frase de efeito, mas, antes de enviar, resolvo deletar o texto e substituir por um ou dois emojis para me fazer compreender melhor. É mais forte do que eu. Na última atualização dos meus apps, não tardou para que o emoji da menina astronauta se tornasse minha resposta predileta do momento. A sócia já se habituou a conversar comigo nesse viés tão pitoresco e somos capazes de mover montanhas por meio de sinais sem propósito.

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As pessoas me perguntam: por quê? Eu devolvo com um unicórnio, ele fala por mais que mil palavras. Quanto mais fora de contexto o emoji, tanto maior a chance de ir para o topo dos favoritos da semana. Aliás, acredito cegamente que, depois da roda, os emojis do whats app e os botões de reação do facebook foram a melhor invenção da humanidade. Aliás, logo que, estranhamente, aderi ao face, há quase dois anos, a possibilidade única de tão somente curtir as incursões dos meus amigos pelo feed me causava uma fobia comunicacional tremenda. Nunca me sentia à vontade para curtir postagens tristes, por exemplo, ao passo que ignorar soaria ainda mais rude. A interação da rede social, como eu havia temido, era caminho de uma só via, dilema angustiante. E eis que, tempos atrás, o jovem Mark, o Einsten da rede social, nos agraciou com a incrível oportunidade de reagir às postagens da timeline nossa de cada dia. Um marco na história, eu diria.

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Pensando bem, eu diria exatamente o contrário, e cada um que processe do jeito que bem lhe aprouver. Eu diria que emojis e botões de reação são o retrato falado do retrocesso da humanidade. Um paradoxo que nos transporta do auge deste século para os confins da pré-história, quando o homem, ainda dotado de um cérebro rudimentar, expressava-se através de símbolos e desenhos.

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A evolução da linguagem através dos sinais foi a força motriz da civilização, mas quando chegamos onde chegamos, na apoteose da era contemporânea, voltamos a nos comunicar à la homem das cavernas, conversando através de desenhos e expressando sentimentos, emoções, ressentimentos, alegrias e raivas por detrás de carinhas infantis, bichinhos das fazendas e das florestas e outros sinais bestiais.

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Linguagens esquemáticas, ou representações artísticas abstratas são, segundo Wilhem Worringer, expressões de tentativas inconscientes de reestruturação da sociedade em face a uma realidade inapreensível, inabarcável, enfim, ameaçadora. O supra sumo do nosso tempo.

 

Digo mais: quem especula que a Língua Chinesa tende a ser o próximo idioma indispensável depois da Língua Inglesa é porque não é visionário como eu. É o emojinês que vai dominar o mundo e mudar os rumos do planeta, senhores. Modéstia à parte, já sou fluente no dialeto do próximo milênio.

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Gifs: Reprodução/giphy.com

O Natal ostentação das famosas

23 / 12/ 2016

 By Marcela Brown

Ei, você aí! Sim, é com você mesmo que estou falando. Com você, que decorou o pinheiro natalino com muito esmero, pendurou na lareira aquela meia tricotada pela tia-avó em meados de 1996 e foi na lojinha de tranqueiras mais próxima comprar mais um joguinho de pisca-pisca para pendurar na janela e arrematar seu composê de noite feliz. Ficou tudo lindo, não é mesmo? Você na certa soube aproveitar bem o orçamento modesto ou classe-média, assim como reaproveitar com maestria os ornamentos que tinha à mão, com foco na sustentabilidade e com muita confiança no seu bom gosto. Estou falando com você que, assim como eu, pegou o filho e o posicionou feito um dois de paus na frente da deslumbrante árvore de Natal, ciente de que ela era a mais linda de todo o universo, fez aquela fotinha com iluminação duvidosa e postou no instagram uma frase de efeito do tipo: casa pronta para receber o Noel (sim, chega a arrepiar, né?). Quero antecipar que as cenas que você verá a seguir podem causar estranhas sensações. Tudo bem, sei que você se inspirou nos melhores do it your self de presépio de papel machê e que seu refúgio ficou digno de morada do bom velhinho no Polo Norte. Mas agora para tudo e dá uma olhada na ostentação natalina das celebs abaixo, você não vai acreditar nos seus próprios olhos. Genthy, que é isso? Respira e vem comigo:

 

Certamente daria para alimentar todas as crianças da Somália apenas com as bolinhas de Natal do humilde pinheiro da Mariah Carey.

 

 

Que a família Kardashian é megalomaníaca, não temos por que discutir. Mas, Jesus crucificado, que decoração é essa? Choveu prata na casa de Kylie Jenner? E a matriarca Kris Jenner? Essa não poupou esforços (nem milhares de dólares) e, além de contratar os experts mundiais do design, ainda fez um vídeo para ostentar a própria ostentação.

 

 

All I want for Christmas is you .. ❄️ Uma foto publicada por Kylie (@kyliejenner) em

 

 

Primeiro um parêntese necessário: que edição de vídeo é essa, minha gente? Beyoncé lacrou nas guampinhas de rena (se é que a ideia era essa, porque está meio bisonho), mas, por todos os santos, por que essa decoração caréeeesima e de gosto tão duvidoso? Meu voto vai para a meia tricotada da tia-avó.

 

Um vídeo publicado por Beyoncé (@beyonce) em

 

Que rufem os tambores. Como sempre, quando chega na Britney Spears, imagens falam mais que mil palavras.  

 

Our great Thanksgiving! Um vídeo publicado por Britney Spears (@britneyspears) em

 

Ok, admito que meu espírito natalino não é lá algo que se diga, ó meu deus, não vivo sem meu panetone de final de ano, mas tem dó. Onde aperta o botão pra chegar logo o carnaval e acabar a odisseia da ostentação pinheirística? Não vejo a hora de cair na avenida.

Eu, minha tolerância zero e o top 5 das perguntas idiotas

28 / 11/ 2016

 By Marcela Brown

Autoconhecimento é coisa séria e se tem algo que eu gostaria de poder mudar em mim (além de trocar de corpo, cara e conta bancária com a Gisele Bündchen, claro) seria a minha falta de paciência. Falta de paciência com quem? Resumidamente falando, com o universo.

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Já tentei ioga, meditação, reiki, terapia holística, café descafeínado e outros tantos caminhos para me tornar uma pessoa zen, na mais pura essência. Foi em vão. Tudo que consegui foi ficar mais zen tolerância ainda. Movida pela intempérie que inspira e dá alcunha a este blog, considerei que um pseudo-desabafo cibernético poderia acalmar meus (péssimos) ânimos de final de ano (pensa em alguém totalmente desprovido de espírito natalino).

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Espírito Natalino: minha única nostalgia natalina ao ornar o pinheiro deste ano foi relembrar a primeira temporada de Stranger Things

 

E, assim, no embalo da intransigência que habita meu ser, achei por bem prestar um serviço a quem, assim como eu, padece com aqueles questionamentos descabidos do dia a dia – vulgo perguntas idiotas. Criei meu top 5, livremente inspirados em fatos verídicos protagonizados por mim mesma.

 

5º Lugar

Ao telefone

Operadora de internet – Muito bem, senhora Marcela, posso te ajudar em mais alguma coisa, senhora?
Eu – Primeiro, como assim muito bem? Não tem nada bem, menos ainda de muito bem. Segundo, como assim, me ajudar em algo mais? Tu não me ajudou em nada até agora. Eu continuo sem sinal de internet.

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4º Lugar

Em casa 

Eu – Alguém viu meus óculos de grau?
Identidade será preservada – Não está na caixinha dele?
Eu – Nossa, como eu pude perguntar sem antes olhar dentro da caixinha dele? Eu estava procurando no pote dos cotonetes, como sou burra.

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3º Lugar

Ao atender o telefone residencial
Eu – Alô?
Identidade será preservada – Oi! Tu tá em casa?
Eu – Não, estou na Europa fazendo selfie na Torre Eiffel, mas achei melhor levar o telefone convencional junto pro caso de alguém ligar pra minha casa.

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2º Lugar

Via whats app

Marido – Oi, tem uma chamada não atendida tua. Queria falar comigo?
Eu – Não, liguei por ligar mesmo. Quando eu não tenho nada pra fazer eu fico ligando pras pessoas mesmo sem querer falar. Como teu número tá gravado como Amor tu é sempre o primeiro da lista. Não é legal?

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1º Lugar

Mas, o primeiro lugar, sem margem para dúvidas, vai para uma pergunta feita há quase cinco anos, quando meu pequeno ainda tinha poucos meses e eu estava amamentando num banco do shopping. Passou uma conhecida dos tempos da escola e, ao me ver amamentando aquele bebezinho, indagou, surpresa:

Conhecida da escola – Oi Marcela!!! Quanto tempo! Nossa, é teu filho?
Eu – Meu filho? Não, bem capaz. Eu sento aqui todo dia e fico amamentando os bebês dos outros. Cobro cinco reais por cada peito.

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O povo pede, né minha gente? Conto com a ajuda do nobre leitor (a) para que juntos possamos criar um top 10. Afinal, quem nunca?

 

Foto: Vinicius Piagetti/Especial

Gifs: arquivo pessoal e Giphy.com

Dia dos Solteiros: 15 ditados e 15 dicas para ser feliz na solidão

15 / 08/ 2016

 By Marcela Brown

Recentemente uma amiga foi promovida ao status de solteira. Eu já sabia que existe um monte de datas estranhas no mundo, mas quando descobri que o dia 15 de agosto é Dia dos Solteiros vislumbrei a grande chance que eu tinha de dar um apoio e, quem sabe, atingir mais pessoas que tiveram que encarar a bad da separação e ainda não captaram que a solidão é um inesgotável oceano de possibilidades.

Sofro de sinceridade crônica e sou pós-graduada em socos de realidade – a alcunha deste blog não nasceu do vento. Por isso, você, solteiro ou solteira que está criando raiz na frente do feicibuqui, presta atenção nas minhas dicas infalíveis para espantar a solidão mesmo nas horas difíceis, baseada na mais pura relevância científica que a humanidade já ousou inventar, ou seja, os ditados mais esdrúxulos da sabedoria popular. Aperta o cinto e vem comigo:

 

1 – “Antes só do que mal acompanhado.”

Uma das vantagens mais incríveis de ser solteiro é a possibilidade de estar sozinha e adorar a própria companhia. Pense que você é um ser habitado e nada pode ser melhor do que conversar consigo mesmo(a) em seus pensamentos. Ou não.

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2 – “Você é o que você come.”

Não é porque você está solteiro(a) que deve descuidar da alimentação. Procure priorizar uma dieta balanceada, comer a cada três horas e trocar o carboidrato pela fruta. Tá bem, esquece, pula pra próxima dica e chama qualquer coisa pra comer.

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3 – “É dando que se recebe.”

Aproveite essa nova fase da vida para conhecer novas pessoas, expandir horizontes, abrir alas para novas conquistas. Mas atenção: tente se fazer de difícil quando se sentir cobiçada pelo próximo e estiver prestes a sair da seca. Não comemore sua glória sexual antes do tempo para não parecer desespero.

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4 – “Há males que vêm para o bem.” 

Longe de mim querer fazer apologia à bebida, mas a melhor companhia das horas de fossa sempre foi e sempre será a maldita birita. Mas, por mais solitário(a) que você esteja se sentindo, aprecie seu pileque com moderação e preserve sua dignidade.

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5 – “Boca fechada não entra mosca.”

Sim, a gente sabe que você tem muito dizer. Foram tantas emoções, rupturas, desilusões, euforias, altos e baixos vividos nesses últimos dias… Mas procure desabafar com sua mãe, com sua vó, no máximo com a melhor amiga, e em um lugar privado. Fique longe dos palcos, microfones e karaokês. Especialmente depois de ler a dica 4.

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6 – “Dance conforme a música.”

Tudo bem, não importa qual foi a bad do fim do relacionamento. Não estamos aqui para julgar quem entrou com o pé nem quem entrou com a bunda. Vamos partir do princípio que você ainda está sofrendo de picos de entusiasmo crônico sempre que sai para uma badalada, o que é supernormal, aceitável e esperado para o seu quadro. Mas um pouco de bom-senso não faz mal a ninguém, então vá com calma, você não está em um reality show (no máximo no pub da sua cidade).

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7 – “Amigo é coisa para se guardar.” 

Sim, todo mundo tem uma BFF e você, mesmo solteira ou à beira do abismo também haveria de ter, afinal, o sol nasceu para todos. Isso não significa que você tenha que ligar para o dito amigo ou amiga às 3 horas da manhã para relembrar os tempos de escola e alentar o coração.

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8 – “Onde há fumaça, há fogo.”

Eu entendo que o gatinho da academia está te dando o maior mole. Mas não se empolgue tanto com isso. Procure manter a discrição e seguir em frente, como se nada tivesse acontecido. Tente não se utilizar de métodos subterfúgios para chamar a atenção.

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9 – “Beleza não põe a mesa.”

Saiba que não basta você ser linda por fora se você for feia por dentro. Descubra como usufruir dos seus atributos externos sem perder a classe e, principalmente, a humildade.

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10 – “Amigos, amigos. Negócios à parte.” 

Não faça a Mônica de Friends e deixe seu apartamento virar a casa da mãe Joana. Lembre-se que você está bancando água, luz, papel higiênico, limpeza do day after e se bobear o disk-cerveja. Imponha uma vaquinha financeira (pode ser um cofrinho colaborativo logo na entrada mesmo) ou manda trocar o QG dos solteiros pra ontem.

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11 – “Saúde não tem preço.”

Tudo bem, você está alçando o primeiro (ou décimo, tanto faz) voo solo. Isso não significa que você não necessite mais de um plano de saúde nem tampouco possa deixar a atividade física de lado. Muito antes pelo contrário: aposte em um personal trainer bem sarado e vá à luta. Eu me refiro à sua saúde.

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12 – “Palavras são como flechas.” 

Saiba que suas emoções vão estar à flor da pele no pós -separação. Mas não perca a razão. Procure poupar palavras mesmo quando se tratar da ex-sogra ou daquela amiga falsiane dando letrinha – ela que contava os dias para você se separar  e se tornar uma loser como ela. Lembre-se, você é maior que isso.

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13 – “A pressa é inimiga da perfeição” (ou “Quem espera sempre alcança”)

Anote no seu caderninho: seus dias de infortúnio estão contados. O mundo vai descobrir tua beleza, teu valor e teu talento, você só precisa ter paciência esperar alguns dias, anos, talvez milênios. Mas esse dia chegará. Enquanto isso, pense que agora tem uma cama só para você.

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14 – “Mais vale um pássaro na mão que dois voando.”

Vá com calma em suas atitudes e tente valorizar as coisas boas que você tem, mesmo que não tenha sobrado muita coisa. Por exemplo, você tem amigos por toda parte. Mesmo que eles não sejam bons o suficientes ao ponto de te darem um milhão de dólares para você curar a do de cotovelo no Caribe nem muito menos sejam os papas da furadeira para auxiliar a fixar os quadros no apê novo.

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15 – “Águas passadas não movem moinhos.”

Entregue e confie. Faça a Pollyana e tente encontrar o lado bom da vida de solteira, basta você ter duas coisas fundamentais em mente e jamais esquecer delas: a primeira é que figurinha repetida não completa álbum; a segunda é que quem vive de passado é museu.

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Gifs: Reprodução/Web

 

 

 

Síndrome do coelho de Alice: estou atrasada, terrivelmente atrasada!

28 / 06/ 2016

 By Marcela Brown

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Sempre atrasada: Marcela Brown sendo Alice

 

Tenho fama de retardatária. Sempre a tive, receio que sempre a terei. Sou um arremedo de coelho da Alice, modo desespero ativado full time, olhando o relógio freneticamente e gritando: “estou atrasada, muito atrasada”. Já que nem Freud explica, deixa que eu fico com o serviço sujo: a sina para o atraso esteve arraigada em mim desde o nascimento. Pobre dona Helena, que, no ápice da juventude – aos 19 anos creio que ela teria preferido uma calorosa reunião dançante no Bom Fim a uma gélida sala hospitalar que antecede os louros da maternidade (jamais haverei de questioná-la sobre isso, diga-se) –, passou algumas horas de martírio, em franco trabalho de parto e sem sinal wi-fi para que as contrações passassem mais depressa. Atrasada de antemão na vida que me espreitava lá fora, atrapalhei-me no ato da minha chegada epifânica ao mundo e acabei emaranhada no cordão umbilical. Tive que vir à luz através de uma cesariana feita às pressas e minha progenitora, que já não estava munida de wi-fi, viu-se também sem anestesia adequada para receber sua primeira filha (sim, ela encorajou-se a continuar perpetuando a espécie).

 

Ainda no patamar da minha estreia biológica permeada de desventuras umbilicais e altas doses de morfina, eu diria que meu mapeamento de signos também é pouco aprazível e a combinação enfadonha de astros e estrelas que me coube reverbera em minha incapacidade de seguir a rotina como um ser humano normal. Fui astrologicamente comprometida, herdando a inquietude do sol em gêmeos, o imediatismo da lua em áries e a indecisão do ascendente em libra. Na prática: eu quero estar em muitos lugares, porém em todos eles ao mesmo tempo e, na ânsia de decidir, não chego a lugar algum. Ou melhor, chego em todos, mas sempre atrasada. Até porque, não raro, algo no trajeto desvia minha atenção.

 

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Go crazy: Marcela incorporando a síndrome do coelho da Alice

 

Talvez se eu pertencesse a outra época as coisas seriam diferentes (e não me refiro apenas ao combo astrológico). É que dos anos 1980 pra cá, tudo ficou cada vez mais apressado. Lembro com nostalgia despretensiosa da festa que a gente fazia quando o meu pai conseguia um videocassete emprestado e alugava uma fita para todo o final de semana. O divisor das águas mesmo foi quando ele nos levou ao trabalho dele para revelar a assombrosa tecnologia do fax. Eu ainda era criança, gostava de escrever em papel de carta com cheirinho, colar figurinhas, selar o envelope e depositar nos correios para minhas amigas da escola. O mundo havia mudado nas vias de fato e a partir do meu primeiro contato com envio de fax tudo foi ficando tão mais veloz que quando dei por mim já havíamos alcançado a era do snap chat, símbolo por excelência do fetiche instantâneo que move este século bisonho. Confesso que me atrasei, como sempre. Cheguei no facebook quando a febre do momento estava a cargo do instagram, procrastinadora nata que sou.

 

Dia desses, meu filho perguntou se meu pai também “confiscava” o tablet quando eu me comportava mal. Respondi que o dispositivo em questão sequer existiu na minha infância. E o Google, mãe? Não. Netflix? Hein? Espantado, ele pensou, pensou. Do alto dos seus quase 5 anos de idade vislumbrava o nada com olhinhos curiosos, tentando organizar tantas ideias abstratas. Então o baixinho questionou com seriedade: mãe, quando tu era criança na tua casa também não tinha paredes?

 

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Tempos agitados: nem o coelho da Alice aguenta mais tanta pressão

 

São tempos apressados, furiosos, ansiosos, frenéticos. Seria chover no molhado dizer que ou corremos atrás da máquina ou ela nos devora. Tenho um ritmo estranho. É acelerado, porém um acelerado angustiante, como se eu já estivesse em velocidade máxima e mesmo assim algum infeliz buzinasse atrás de mim mandando eu me apressar ainda mais. E, pensando bem, é lamentável, mas é isso o que muitas vezes faço com meu menino, mesmo sendo ele uma criança contemplativa, que gosta de ver a fila de formiguinhas levando sua comidinha pela calçada, que nutre paixão por contabilizar as folhas amarelas que caíram das árvores da nossa rua durante o outono. “Buzino” atrás dele, apressando os passos do pequeno como se nosso caminho fosse menos importante que a chegada. Sem perceber, o acúmulo de funções às quais, especialmente nós, mulheres, estamos submetidas, não nos permite apreciar o ciclo natural de todas as coisas no conturbado dia-a-dia. Não é por menos que as crianças desta geração querem tudo para ontem: elas são os espelhos desse estilo de vida go crazy que se leva.

 

Desculpem, não era disso que eu estava falando: eu dizia que estou sempre atrasada, muito atrasada, terrivelmente atrasada. Na minha infância nossa casa tinha paredes, senhores. E elas nos bastavam porque a família estava completa dentro delas. Não havia smart phone mas existia pausa para respirar, conversar, brincar. Isso sim era smart. Sendo bem sincera? Quanto mais tento ser parte deste contexto de urgências incessantes, mais alheia me sinto em relação a ele. Aliás, segura essa: descobri que quanto maior a minha pressa, tanto mais atrasada estarei.

 

Fotos: Néia Dutra/ Acervo Margot Magazine

 

 

A gente não tem cara de panaca

03 / 06/ 2016

 By Marcela Brown

 

Por alguma razão obscura, ou melhor, por várias razões obscuras, já tem um tempo que me tornei um ser apolítico. Cansei de argumentar e, principalmente, cansei de argumentos alheios – e de toda espécie, diga-se –, especialmente lendo arremedos de discursos extraídos diretamente do que hoje é a força motriz da sabedoria política do nosso país: a timeline da rede social. Era de esperar que a contemporaneidade sucumbisse sem parcimônias à informação digital, a rótulos que às vezes soam até bestiais e ao plano da aquisição do conhecimento rasteiro, mas só posso concluir que nunca lemos e estudamos tão pouco e, paradoxalmente, nunca opinamos tanto – assim como nunca tivemos tanta necessidade de publicitar nossas impressões – sobre assuntos cujo entendimento nos escapa ou foi francamente plagiado ou compartilhado do perfil do amigo cibernético que faz as vezes de cientista político confiável.

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Nota: quando falo sobre estudar não me refiro ao mero ato de frequentar uma universidade ou escola. Outra coisa. Sempre digo que se opinião fosse algo bom, ninguém dava de graça. Que opinião é como bunda: todo mundo tem, nem por isso precisa sair por aí mostrando. Mas não sou termômetro pra nada: sou chata, minha tolerância é uma nulidade, envelheci precocemente e sofro de TPM crônica em altíssimos níveis. Além disso, vamos combinar: incomodados que se retirem, não é mesmo? No caso, eu. Então que fique bem claro que não regozijo-me desses dissabores, eu adoraria ser a Pollyana da rede social, fazendo o jogo do contente. E, verdade seja dita, eu celebro (e todos nós deveríamos celebrar), a liberdade de expressão, a possibilidade de levar à arena virtual anseios políticos, seja em qual lado você prefira se posicionar, sejam quais forem suas convicções. O primeiro problema é que, via de regra, o brasileiro leva tudo muito para o lado pessoal e as discussões acerca dos “rumos da nação” convertem-se em qualquer coisa menos em um debate sério e frutífero. O segundo problema é que em plena era da informação instantânea, somos uma geração de desinformados, escapistas e mediadores fugazes.

 

Palavras ditas voam ao vento, palavras escritas ficam: à luz do facebook, o clima beligerante de conflagração geral e universal que o Brasil vive hoje, por vezes menos ou mais intensamente, é o espelho das disputas acirradas e discussões exacerbadas em função do clima absolutamente hostil no meio político social. Por isso venho me limitando a observar, a resguardar meus pensamentos e a tentar compreender (ao menos em alguma medida) esse panorama que divide todas as águas da história do nosso “país”. Mas, há uma semana, algo despertou em mim e, por estranho que pareça, a epifania ocorreu ao final do show da Maria Rita, em Porto Alegre. A imortal É, de Gonzaguinha, foi uma das derradeiras canções interpretadas pela filha de Elis Regina no espetáculo Samba da Maria e assisti de camarote a um Araújo Vianna lotado, público em pé, bradando pelo mesmo propósito, em uníssono:

[…]

É
a gente não tem cara de panaca
a gente não tem jeito de babaca
a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela

É

a gente quer viver pleno direito
a gente quer é ter todo respeito
a gente quer viver numa nação
a gente quer é ser um cidadão

 

Feito passe de mágica, para mim tudo se recompôs na esfera da arte. Porque é na orbe da beleza que talvez as coisas de fato se reunifiquem. Cidadãos de direito, sendo estes ou aqueles prós ou contras isso ou aquilo, nas vias de fato, estão juntos almejando algo melhor, dando a cara à tapa, tirando satisfação, trazendo questionamentos à tona. Neste bizarro 2016, logo que o circo começou a incendiar e a nós, eleitores, foi concedida a alegoria oficial do palhaço, alguém tuitou que fazer piada sobre o Brasil no meio dessa crise é como tocar violino enquanto o Titanic está afundando. Lembrei disso no momento em que cantávamos É com tanta raiva e vontade: para o bem, ou para o mal, estamos todos no mesmo barco. Ou no mesmo circo.

 

 

Foto e vídeo: Acervo Margot Magazine

 

Uma sociedade (quase) perfeita

09 / 05/ 2016

 By Marcela Brown

*** Diretamente do túnel do tempo para o Dia das Mães 2016 ***
Contraí uma sociedade indissolúvel. Confesso que as tratativas da negociação são um tanto díspares, mas estou encarando com serenidade e investindo tempo e dinheiro com afinco, sem medo do que o futuro venha a me reservar. Às vezes é preciso arriscar, não é assim? Em verdade, demorei algumas semanas para me adaptar ao meu novo sócio. Invasivo, ele me acompanha onde quer que eu vá. Num piscar de olhos, perdi integralmente a privacidade, da mesma forma que abdiquei da minha cintura: meu sócio é faminto e, ao pretender alimentá-lo, acabo por me alimentar demasiadamente também. Engordei.
No entanto, não posso me queixar, pois o suprimento da fome do meu parceiro consta nas cláusulas do nosso contrato. Muito antes de desejar, também perdi por completo o controle da situação. Sem muita cerimônia, o associado tornou-se meu inquilino e não faz menção a respeito de pagar aluguel. O abuso não para por aí: o locatário dispõe do lar que ocupa como bem lhe cabe. A cada semana, faz novas modificações, disposto a aumentar cada vez mais o seu espaço, sem consultar a proprietária em questão. Mas, admito, estou gostando das ampliações que ele vem executando, é diferente de tudo o que eu poderia sonhar. A realidade é que me afeiçoei a este sócio desde as primeiras linhas do nosso acordo, talvez por isso tenha cedido às convenções desiguais da união negocial.
E, ao me envolver emocionalmente na associação, também meu matrimônio nunca mais foi o mesmo. Agora eu acordo com o meu sócio, trabalho o dia inteiro com o meu o sócio, almoço, janto e durmo com ele. Era inevitável que eu acabasse por me apaixonar ao ponto de colocá-lo em primeiro lugar na minha vida, acima de tudo e de todos. Acima de mim. Mas ainda resta quase um trimestre para que eu venha, enfim, a conhecê-lo nas vias de fato. A esta agremiação, selada com o meu próprio sangue, alguns dão o nome de maternidade. Eu chamo de Pedro.

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Texto originalmente publicado na coluna de opinião do Jornal NH [6.8.2011]

 

Foto: Maria Helena Rodrigues/Especial

 

Novo Hamburgo: sobre lugares-comuns

16 / 02/ 2016

 By Marcela Brown

Prólogo: Eu adoro quando estou fuçando em pastas obscuras do meu computer e dou de cara meus próprios textos velhos. Esta foi minha estreia como colunista de opinião no Jornal NH. O artigo foi publicado há quase seis anos, mas ainda é muito eu. Tanto mais que agora sou mãe. Aí vai!

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Meu passaporte para o mundo: Pedro aos 11 meses, em 2012

 

Decidi deixar Novo Hamburgo há cerca de uma década. A única certeza era a de que este lugar não me pertencia – e vice-versa. Foram projetos nada tímidos: encaminhar o Green Card (sou filha de norte-america­no e, tecnicamente, isso, sim, me pertencia), me mandar para tão longe quanto possível e, por fim, mudar o mundo de alguma for­ma ou construir algo que fizesse a diferença.

 

Com 20 anos, arquiteta da própria sina, senhora do seu amanhã, o “fenômeno” aqui concluiu que precisaria de dinheiro. Após a faculdade, tornei-me jornalista com cer­to desapego, até que o exercício da profis­são me seduziu. Ateia convicta, disposta a pôr uma mochila nas costas e viajar à deri­va, fui batizada e casei na igreja aos 25. De véu e grinalda, com pompa e circunstân­cia. Comprei apê, fixei residência. Quan­do vierem os filhos, terei completado a lis­ta de tudo que outrora pretendi renunciar.

 

Não raro, topo com seres perplexos a in­dagar tais escolhas. Vá explicar. De tão pisa­da, a fórmula soa rasteira: a moça desprendi­da apaixona-se pelo carinha da “facul”, envolve-se com o emprego, descobre Deus, surpreende-se afeiçoada à fa­mília e aos amigos que lhe são caros e moram, adivinhe onde? Em Novo Hamburgo, habi­tat cativo. A simplicidade é complexa an­te o julgamento alheio. É que sentimentos são feitos para sentir – se pudesse descre­vê-los, eu seria Dostoiévski. Sou tachada de provinciana, conquanto tenha embarca­do na mais descomunal das aventuras: ab­diquei da segurança de navegar, como su­geriu Fernando Pessoa, e me permiti viver. Nadei na contracorrente do que vislum­brara, assumi os riscos de ficar, permane­cer, estar e fazer check-ups regularmente.

 

Na adolescência, ao desejar a intensida­de, premeditei passos pelo avesso. Adul­ta, ao trilhar o lugar-comum – a enfado­nha tríade estudos, casamento e trabalho –, me vejo rodeada de desafios bem mais instigantes, satisfatórios e palpáveis. Exis­tenciais, talvez. O tempo dirá se fiz algu­ma diferença. Meu passaporte expirou. Na certa, não conseguirei mudar o mundo. Ti­ve sorte: o mundo conseguiu me mudar.

 

Foto: Neca Carrasco

*Texto originalmente publicado na coluna de opinião do Jornal NH no dia 31 de julho de 2010.

 

 

About Christmas: o vendedor de moranguinhos

24 / 12/ 2015

 By Marcela Brown

vendedor de moranguinhos

O 25 de dezembro se aproxima e, com ele, nossos sentidos parecem, ou pelo menos deveriam, se aguçar. Embora os verdadeiros valores que contemplam esta época nem sempre sejam exaltados – digamos que, de modo geral, eles sequer são lembrados –, é tempo, sim, de desejar, agradecer, agir com reciprocidade. Em meio a essa atmosfera, compartilho um episódio que vivi há alguns dias. Diz respeito a um vendedor de moranguinhos. Lá estava o menino, no sinal fechado, e o canteiro da avenida a abrigar um cartaz: quatro caixas por cinco reais.

 

O primeiro a parar no semáforo foi um taxista. O rapaz de indumentária em frangalhos aproximou-se com desenvoltura do táxi, munido de dois kits, contendo quatro caixas de morangos cada um. O motorista negou com a cabeça, fechou o vidro, mas o pivete risonho gesticulou, para que lhe deixasse falar. Com traquejo pessoal e intransferível, a figura consolidou a venda em segundos, partindo em minha direção.

 

Com outro kit em mãos, me pediu a palavra. Abri o vidro e disparei: “Eu não quero, obrigada”. Ele não se deixou intimidar, pedindo que eu lhe desse apenas 30 segundos: “Moça, tu não conhece o poder do morango. Faz bem pra pele, tem um alto potencial rejuvenecedor. Suco de morango combate as celulites, varizes e ainda emagrece, previne até resfriado. Tu sofre de TPM e estresse, né? Comer morango acaba com tudo isso, está comprovado. Não te convenci? Olha bem, moça, os meus morangos combinam até com o teu carro, que é vermelho.” O sinal abre. “Me dá três kits desses, pelo amor de Deus!”, supliquei, com o dinheiro na mão, e arranquei, estarrecida.
Não voltei a topar com o menino em avenida alguma, nem tampouco a comprar morangos. Só o vi uma vez, mas desejo que ele tenha uma vida feliz, que se valha do seu talento de vender moranguinhos para almejar, ainda na infância, uma vida adulta mais próspera. Esse é meu pedido de Natal. E, se pudesse desejar algo mais, adoraria descobrir o que aquela ávida criança teria dito ao taxista à minha frente. Ah, se a curiosidade matasse…

 

Texto originalmente publicado na coluna de opinião do Jornal NH do dia 18.12.2010

 

Imagem: Pinterest/Reprodução

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