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Vidaloka, eu?

19 / 10/ 2015

 By Marcela Brown

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– Manheeeeê, quero meu Nescau.

– Bom dia pra ti também, meu filho.

 

O despertador, como você bem percebeu, acaba de tocar com sucesso. São 7h30 da manhã, eu amasso meu galinho carijó de beijos. Enquanto preparo o nescau do prefeito do minimundo, mentalmente começo a projetar meu dia. Hoje preciso render:

 

“Hum… deixa eu me organizar… Depois do café vou na academia, na volta passo na farmácia, tento comprar uns morangos no sinal pro lanchinho da manhã do Pedro, volto pra casa voando, tomo banho, delibero o cardápio com a minha superfuncionária e me jogo no trabalho até meio-dia. Almoço e depois levo o baixinho pra escola. Mas, antes de mais nada, não posso esquecer: hoje é dia do lanche com farináceos, tem três bilhetes pra assinar na agenda, o livro da biblioteca pra devolver, dia do penteado maluco e do brinquedo livre. Ai, que bom que lembrei! Em seguida tenho uma reunião, mas primeiro preciso finalizar algumas revisões, fazer algumas ligações, dar uma escapada para comprar os presentinhos dos aniversariantes da semana na escolinha, se der tempo passar no supermercado, buscar as roupas na costureira e as impressões na gráfica, fazer mais quinze ligações, responder todos os e-mails urgentes. Putz, tem que dar tempo. Tá, volto da reunião, trabalho até a hora dos “meninos” chegarem. Eu e o marido nos revezamos. Um dá banho, outro arruma a mochila; um esquenta a janta, outro separa o pijama; um corta as unhas, outro dá o antialérgico. Aula sobre planetas com o papai, eu aproveito e volto ao trabalho, depois brincamos de rodopiar na cadeira do home office. Ufa, dormiu, vou trabalhar mais algumas horas e finalizo a agenda.”

 

Saio dos meus pensamentos. Terminei de vislumbrar meus planos para as próximas 12 horas que estariam por vir. Sinto o cheiro da vitória no ar. Preparo meu café com a superioridade de quem sabe onde quer chegar. Perco um pouco o foco ao me distrair com a família perfeita e pitoresca da Peppa Pig, cujo episódio meu filho assiste pela centésima primeira vez, de cabeça pra baixo no sofá. Mamãe tolinha, foca na programação. O que era pra fazer primeiro mesmo? Respondo alguns e-mails, reviso textos, o telefone toca, boas notícias, más notícias, nada que não se possa resolver.

 

Peço para minha funcionária chamar o verdureiro porque não vai dar tempo de comprar morangos no sinal. Disque-farmácia, obrigada por existir. A academia pode esperar. Até sei lá quando. Já não posso me dar ao luxo de escolher a gastronomia familiar:

– Gê, faz o que tu quiser de almoço, hoje tem que mandar farináceos pra escola, onde está o livro da biblioteca? Pedro, vai almoçando com o papai, tenho que me arrumar para reunião. Tô pronta, vamos filho, tem que fazer o cabelo maluco. Amor, tu pode ir no super, eu não vou conseguir. Filho, vamos, estamos atrasados para a escola, lembrei que ainda tenho que mandar lavar o carro, partiu!

 

Costureira? Esquece. Gráfica? No way. Presentinhos? Sem chance. Ligações? Amanhã. Emails. O quê? Reunião cancelada. Vou aproveitar pra revisar textos e finalizar os contratos. Nossa, tive uma ideia muito boa, para tudo. Para o mundo.

– Sócia? Escuta essa! Xi, os guris chegaram, socorro, depois te conto.

 

Tá, vamos otimizar os afazeres:

– Amor, tu dá banho e janta, eu arrumo a mochila, Pedro, vê teu pijama. Credo, já é noite. Alô? Mãe? Não posso te atender agora, fala aqui com o Pedro. Filho, fala qualquer coisa aqui com a vovó.

 

Volto ao trabalho. Lembro de tomar banho. Mas preciso preparar a pauta primeiro. Amanhã vou me programar melhor enquanto o Pedro toma nescau.

 

Passou da meia-noite, banho tomado, pronta pra desmaiar, digo, dormir. Recebo uma mensagem no Whats: “Oi amiga, quanto tempo? E tu guria, só festa e festa? Tô acompanhando as Margots no face, ô beleza, só curtindo! Vidaloka, hein?”

 

Visualizei e não respondi.

 

Foto: Ângela Jerkievicz/Especial

 

instagram.com/margotmagazine

 

 

Sobre falantes anônimos e outras gralhas maníacas

04 / 09/ 2015

 By Marcela Brown

Cumpre debruçar-se sobre o orador compulsivo. Em todos os meandros, caberia investigar sua intensa necessidade de expressão e inesgotável cacoete retórico. Há que se classificar as gralhas maníacas. Sobre cada uma delas recaem características indeléveis de sua persona, cuja inclinação comunicacional é tão explícita que monopoliza sobremodo até o receptor mais disperso e desinteressado.

 

Tal qual descreveu Woody Allen em uma de suas pérolas, a ansiedade é passível de gasto calórico: a criatura é capaz de per¬der peso com seu próprio conversê. Mentalize um círculo de falantes. O parlatório possivelmente será composto por um atento narrador da vida alheia (vulgo fofoqueiro), um orador neurastênico frente à existência e um indivíduo portador de desarranjo verbal – o papo começa na fila do supermercado, vai para a doença da tia e termina com uma conspiração na Casa Branca.
Em rara ocasião dos tempos de colégio, no lugar de me mandar calar a boca, um professor declarou que os inteligentes falam apenas 10% do que pensam. Malgrado minha burrice, passei a nutrir verdadeira admiração por pessoas taciturnas ou peremptoriamente ouvintes. Subjacente ao monólogo decretado pelo falante, paira este rastreador atento das palavras, disposto a concatenar com parcimônia a avalanche informacional que ali se instaurou. Com relativa frequência, me coloco a observar cientificamente espaços disputados por mais de um falador. Lembra rinha de galo. Se o grupo for composto por mulheres, então o ambiente passa a tanger as raias do apocalíptico.

 

Minha mãe costuma dizer que depois que aprendi a falar, nunca mais parei. Tento me desvencilhar de rótulos e, em alguma medida, me agarrar às oportunidades em que basta dizer o indispensável, exercitando os 10%. Uma amiga que também sofre da síndrome do rádio-poste confessou que se matricularia nos FA (Falantes Anônimos). Com demasiada sofreguidão, eu encararia um curso de “escutatória”. Fazer o quê? A língua é o chicote da alma: atire a primeira pedra quem nunca deu uma de peixe e morreu pela boca.

 

 

Texto originalmente publicado pela autora Marcela Brown na coluna de opinião do Jornal NH, em agosto de 2010.

 

 

E aí, como vai a sua rede social? Papo de botequim.

12 / 08/ 2015

 By Marcela Brown

coloquio de botequim destaque (2)

Duas jovens mulheres conversavam despreocupada e compulsivamente em um boteco. Na sexta caneca de chope, ambas tropeçam em um assunto sobre o qual evitam falar, já que é o único tema que causa divergência entre as amigas inseparáveis. Mas era inevitável comentar sobre a conhecida que teve imagens particulares publicadas em um site erótico sem recair no tabu da rede social.

 

– Bem feito. Ninguém mandou postar fotos de biquíni no Facebook.

– Mas ela só permitia a visualização do seu álbum a pessoas confiáveis.

– Eu confio em três pessoas na minha vida: você, meu pai e minha mãe. Quantas pessoas tinham acesso ao retiro praiano da figura?

– Um total de 561 confiáveis.

– É por isso que eu não tenho perfil em lugar nenhum. Quem, de três milênios, consegue administrar 561 amizades?

– É a proximidade que a rede social permite.

– É a insanidade que a rede social permite.

– Você deveria entrar no Face, iria gostar.

– Prefiro não fazê-lo, como costumava dizer Bartleby, personagem de Herman Melville.

– Nunca li esse cara.

– Isso porque passa o dia compartilhando e curtindo inutilidades no Face.

– Você é retrógrada. Só no Brasil são milhões e milhões de usuários conectados.

– Milhões e milhões de moscas se alimentam de merda, isso não significa que merda seja bom. E o Brasil citado como exemplo. Piada, né?

– Você ficou velha antes do tempo, está precisando se atualizar.

– E você sofre de adolescência tardia. Amadureça, escreva uma carta, leia clássicos.

– Sua cabeça-dura. Abra-se para o novo.

– “Homero é novo, esta manhã, e talvez nada seja tão velho como o jornal de hoje.”

– Pô, gostei da frase de impacto, vou postar agora mesmo para a galera compartilhar e curtir. Homero, hein!

– Desisto… Garçom, mais dois chopes aqui, por favor!

 

[texto originalmente publicado pela autora na coluna de opinião do Jornal NH]

 

Foto: Dutx/Tiago Heckler Fotografia

Britney Spears feelings: achei uma celulite no meu joelho

28 / 07/ 2015

 By Marcela Brown

celulite joelho  (1)

 

Poucas coisas podem ser menos aprazíveis do que a celulite. Detesto, repudio, odeio. Admito e assimilo todos os meus preconceitos. Tem manifesto pacífico sobre isso? Onde eu assino? Não que eu precise me explicar, mas, vá lá: sempre convivi com elas numa boa. Não sei se pela máfia ocidental do “mantenha seus rivais por perto” ou se simplesmente por acreditar que, ao ignorá-las, elas desistiriam de mim algum dia. Até porque nem tenho muitas. Entre 10 e 850 no máximo, nunca ousei contar e considero que contagem de celulites em flagrante deveria, inclusive, constituir ato delituoso previsto na legislação do mundo. Tipo crime universal inafiançável.

 

 

Você também é daquelas que sofre na luz satânica do provador? Poupe-me. Eu finjo que não vejo, faço a blasé, pouco me importa se elas estão ali. E, nós, mulheres, temos PHD para disfarçar as maledettas: no verão a gente se bronzeia, apela para a canga; no inverno taca-lhe meia-calça preta fio 800 e tudo se resolve. Quem tem algo a ver com isso? Você é que não, né? Pois é, nem eu. Até porque bunda é como opinião, cada um tem a sua, conquanto nem sempre valha a pena revelar.

 

Em verdade, vos digo: o problema não é a celulite, é a TPM. Tudo incha, tudo fica blue e tudo vem à tona: espinhas afloradas, alegrias defasadas (até porque diva não tem mau-humor, apenas se resguarda), tristezas exacerbadas (diva não deprime, fica melancólica), barriguinha ostensiva e, claro… as celulites a mimetizar o pior do nosso ser ou não ser, eis a questão.

 

Agora, me explica essa: quem inventou a celulite? Sim, quero saber e peço de antemão que me economizem do papo das toxinas que entranham nas células. Vamos falar português: quem decidiu que mulher tinha que ter esses furinhos enfadonhos? Não dá, gente. Quem me conhece bem sabe que sou zero escrava da estética e nem tenho tempo pra isso.

 

Flacidez? Ok, toma colágeno, come gelatina, vai malhar. Rugas? No problems, são como a nossa história impressa na cara da vida, literalmente (bem que poderia ser na sola do pé, mas já que gostam de se instalar no rosto, façamos a política da boa vizinhança). Cabelo branco? Pinta, amiga (ou não, vai de granny hair que é trend alert, te joga!). Roupas que encolhem? Vou te contar um segredo: fecha a boquinha e quando for abrir, só pode falar coisas lindas e comer alface. Parece que as roupas param de encolher automaticamente.

 

Mas, no fim das contas, tem jeito não…  celulite é como ligação de telemarketing: quanto menos você quer, mais você recebe, não adianta tentar se livrar delas. Até a Britney Spears é a rainha da celulite. Vida real é assim, às vezes precisamos apertar o botão do “fuck” e ser feliz. 

 

 Britney Spears

 

Em tempo: não tenho nenhuma celulite no joelho. A Britney tem, e daí? Quando eu tiver uma ou mais dessas, vou colocar luzes estratégicas no espelho da vida e nunca mais entrar num provador inimigo. O título desse post infame surgiu apenas para que você lesse meu desabafo, porque, sabe… Tô na TPM… e na TPM tudo se amplifica. Carência cibernética, vontade de apertar o botão que faz parar o mundo. E as celulites, hein? Parece que proliferam-se até o branco do olho. Aliás, vamos resolver logo, a única coisa que não aumenta na TPM é a paciência.

 

Lamentável? Compreensível. A natureza sabe o que faz. Est modus in rebus. Mas livrai-nos da celulite, amém.

 

Fotos: Web/Reprodução

 

Sobre a imortalidade das flores de plástico

20 / 07/ 2015

 By Marcela Brown

flores de plástico1

 

A regra era clara. Lágrimas não fariam mais parte da vida amorosa. Engoliu o choro, praticamente abandonou o travesseiro molhado na janela do apê. O sol haveria de secá-lo. O tempo haveria de apagar as desavenças da véspera. Lavou o rosto inchado, requentou o café. Sentou-se para ler, a visão embaçou: mais um flash-back da noite anterior lhe assaltara os pensamentos. Avistou a lixeira da cozinha e, dentro dela, as flores do campo que ganhara com juras de amor cerca de 24 horas atrás. A alegria do jardim primaveril impiedosamente convertera-se na dor do pior e mais sombrio dos outonos. Ali jaziam elas, vilipendiadas, adormecidas no sofrer.

 

Acaso eram elas as culpadas de tudo? Quando compradas na floricultura, onde pairavam exuberantes, mergulhadas em um vaso de titânio, estariam cientes de que em alguns pares de horas seriam descartadas com falso desdém em uma lata de lixo, predestinadas a um drástico fim? Por que, então – no lugar de fazer as vezes de um brinde ao amor –, não haviam sido despachadas direto ao cemitério público, em um túmulo de cujo defunto sequer alguém lembrava o nome? O ramalhete certamente teria preferido a solidão e as agruras da casa dos mortos ao aniquilamento indócil pelas mãos e pelos incessantes pesares de uma mulher histérica.

 

Por quê? Perguntava-se enquanto enxaguava a caneca na pia. Tentou tranquilizar as mágoas, passou mais um café. Beber da cafeína quente e fresca sempre acalentava-lhe as ideias, fazia desabrochar seu bom-senso, onde quer que este estivesse. Sorveu gole por gole, angústia por angústia, pegou a chave do carro, saiu quase feliz por desconhecer o destino à espreita. Retornou inspirada, soltou as compras sobre o balcão, desvencilhou-se dos restos mortais do buquê da discórdia, vasculhou armários até encontrar o kit de bules coloridos e, dentro deles, depositou as novas flores que comprara naquela manhã inimiga. Falsas flores, pois, em verdade, eram de plástico.

 

Arranjou-as com cuidado ao lado do porta-retrato. Pronto. Sua alma, assim, rasteiramente falando, já estava renovada e reencontrava, enfim, a paz que sempre lhe pertencera. Respirou profunda e dramaticamente, como uma ode à TPM. Lembrou da canção e sorriu, com jeito de quem sabe, ou pensa que sabe, burlar um descontrole atroz. É que flores de plástico não morrem.

 

 

 

[texto originalmente publicado pela autora na coluna de opinião do Jornal NH]

 

Foto: Westwing/Divulgação

 

 

 

 

 

A bela resposta de Bela Gil

02 / 07/ 2015

 By Marcela Brown

Em geral, televisão me deprime. Programas de culinária e realitys de chefs, em especial, têm efeito altamente usurpador sobre meu estado de espírito. Sentada no sofá, com uma cara de pateta e salivando de tanta água na boca, consigo sentir o aroma dos preparos a perpassar as fronteiras da tela, dá uma sensação de vazio, fico faminta, impotente. Quando a câmera enquadra o prato final, penso que aquilo só pode se tratar de algum tipo de tortura.

 

Vou falar, no entanto, sobre o quadro culinário que me deixa mais deprê: o Bela Cozinha, exibido pela GNT. Mas não pela Bela, nem pelo conteúdo, nem pelo roteiro. Na verdade, sou fã de carteirinha e nutro admiração plena pela apresentadora, pelo conhecimento que ela passa aos telespectadores e pela forma exemplar com que transporta seu estilo de vida ao mundo das pessoas e, em cima, com carisma inigualável. Por que me deprimo? Simplesmente porque queria morar ali dentro, queria que ela cozinhasse todo dia para mim e para meu filho, que colhesse produtos fresquinhos, que me xingasse quando eu coloco cinco tipos de carboidratos no prato (tenho fraco por carboidratos).

 

Nem em três milênios eu teria paciência para ter uma alimentação tão regrada e balanceada. No episódio de Dia das Mães, mês retrasado, pasmei com a filhinha dela (uma fofa, diga-se) deliciando-se com as comidinhas saudáveis que ela preparou. Meu menino ainda não completou quatro anos e já é um filósofo no quesito alimentar. Em geral, come bem, nada que se compare à menina da Bela, lógico. Mas, como toda criança, adora porcaria e, por mais que eu procure vetar, às vezes, ao não querer ser radical, as coisas fogem do controle. Sem perceber, tornei-me refém das predileções do prefeito do minimundo: a cenoura é processada no suco de laranja, o brócolis é ralado no arroz, a banana tem que ser esmagada com mel e linhaça e assim, erradamente, fui utilizando métodos subterfúgios para que o Pedro continue consumindo alimentos mais nutritivos e menos industrializados. Espinafre? Só no omelete.

 

E por aí vai. O café da manhã é a parte mais crítica: ele é o louco do Nescau e a felicidade matinal da figura mora em bolachinhas com Pepa Pig. Eu culpo meu marido, que compra essas tranqueiras que nunca deveriam ter lugar no armário da cozinha nem na despensa. Na verdade, a culpa é minha, mas se é minha eu coloco em quem eu quiser, oras!

 

E por que esta conversa de Madalena arrependida? Apenas porque fiquei besta ao ver a repercussão de uma foto da merenda da Flor Gil, filha da Bela Gil, postada no Instagram. Tipo, onde fica a próxima parada do mundo para eu descer? Quisera eu que meu filho levasse granola caseira, batata doce e banana da terra para a escola e que a merendeira voltasse vazia.

 

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Mal imaginavam os pitaqueiros infames que Bela responderia com argumentos tão inteligentes, construtivos e passíveis de serenidade budista (porque se fosse eu já mandava… deixa assim). Cada um sabe de si, de sua vida, da sua comida e da sua prole, minha gente. Não moro na porta do Mc Donalds, mas também não tenho uma horta na sacada. Acho que, para tudo nessa vida, ou ao menos para quase tudo, pode haver um meio termo. Eu não conseguiria percorrer um caminho tão intacto no quesito alimentar, mas realmente acho que é de “pequenino que se torce o pepino” e que tudo começa, ou deveria começar, na infância. E, assim, sinceramente? Palmas para Bela Gil, que além de zelar pela nutrição de sua pequena, ainda mandou bem demais na resposta aos malas cibernéticos. Quem ainda não leu, pode ler aqui, antecipo que vale a pena. 

 

 

Foto: Reprodução

Spams, malditos spams

28 / 06/ 2015

 By Marcela Brown

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É domingo. Você está em casa trajando aquele pijama poá supimpa – o maior xodó-blaster, no mais íntimo dos seus segredos de estado. O cônjuge, por sua vez, veste o que eu costumo chamar de roupa de idiota: calça de tactel lilás medonha, camiseta promocional da Copa do Mundo de 1994 e, para arrematar, pantufas puídas a combinar com as polainas tricotadas pela vovó em um longínquo aniversário de 12 anos. Você desfruta da mais pura indolência dominical, expressada em toda a sua glória, no exato momento em que toca a campainha e chega a visitinha-surpresa clássica, a perguntar com desfaçatez quase nada dissimulada: “Estou atrapalhando?” É disso que lembro cada vez que deparo-me com 529 spams não lidos. Sim, na caixa de lixo eletrônico.

 

Tudo bem, eles são filtrados e vão parar no AntiSpam, mas é muita energia dissipada pela humanidade a serviço do aniquilamento dessa praga. Até porque a batalha é ingrata: ao bloquear alguns, novos já surgem, multiplicam-se como gremlins.

 

Dia desses, com sede de cultura inútil, me prestei a pesquisar a origem do dito-cujo. Achei que seria referência a uma seita macabra, mas reza a lenda que a expressão é advinda de um presunto enlatado, produzido lá pela década de 30 por uma empresa americana, chamado Spiced ham. Spam seria a abreviatura do nome do produto, que também teria sido comercializado na Inglaterra. E eis que em um programa de tevê britânico um quadro brincou com o tal presunto, como se ele fosse enfiado goela abaixo nos clientes de um restaurante: daí o spam.

 

Parece o comparativo perfeito para essa publicidade invasiva e não-solicitada a povoar nossas contas de endereço eletrônico. Spam é o bolo que a sua tia faz você repetir dez vezes, mesmo que você esteja farto. Spam é o panfleto que nos empurram no semáforo. Spam é a operadora pentelha ligando no celular e oferecendo up grade de plano. Mas a mais fina analogia do spam, sem dúvida, é a visita indesejada: aquela que você não convidou, não está a fim de receber e tenta despachar o mais rápido possível.

 

[texto originalmente publicado pela autora na coluna de opinião do Jornal NH]

 

Imagens: Reprodução

Indesejável presença

22 / 06/ 2015

 By Marcela Brown

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Hei, o que você faz aí? Conheço seus tru­ques, evite me ludibriar. Sei dos seus artifícios ladinos, de gesto manso, aspecto de poucos amigos. Sorrateiro, você gosta de chegar aos poucos e, o que é ainda pior, quando bem lhe compraz. Quanto mais à vista, tanto melhor para seu sarcasmo atroz. Cumpre lhe infor­mar que muitos como você – alguns maiores e mais fortes – já surgiram e foram aniquila­dos em milésimos de segundos. Faço justiça com as próprias mãos, não terceirizo minha vaidade, não negocio meu orgulho e jamais renego meus preconceitos. Não gosto de vo­cê, você não deveria estar aí, a conspirar con­tra minha juventude.

 

Contudo, admito que seus aliados são no mínimo surpreendentes e muito mais ousa­dos do que eu supunha. Todos dispostos a me detonar, nutrindo-se do prazer do infortúnio alheio. Mas olhe para você. Sem seus cupin­chas não é nada. Acabo com essa desfaçatez em um piscar de olhos, com quem pensa que está lidando? Até ontem eu sequer havia repa­rado em sua presença. Hoje, deparo-me com esse descaramento. É ardiloso da sua parte: sou presa fácil da insignificância petulante à qual você faz questão de me submeter.

 

Sim, sou consciente de minhas fraquezas e devo confessar, ainda, que o problema não é exclusivamente você, mas o que você repre­senta ante a atual conjuntura. Você carrega a minha história, parte de mim está em vo­cê. Isso deveria ser algo de magnífico, não é mesmo? Só que o modo como você se apresenta não é sutil, tampouco é belo. Pensando bem, não chega a ser feio. É que às vezes eu exagero. Saiba que você não me faz mal, em absoluto, apenas irrita minha mania de ostentar ares juvenis. Espere, vou desistir de tamanha covardia. Não devo abdicar das marcas do passado, dei­xarei você ficar desta vez. Quero mostrar ao mundo que este é seu lugar e que, juntos, não temos nada a temer. Venha, cá, venha… Rá, enganei o bobo! Consegui arrancar você daí, maldito fio de cabelo branco.

 

 

[texto originalmente publicado pela autora na coluna de opinião do Jornal NH]

 
Foto: Tiago Heckler/Especial

A Hipocondríaca Cibernética

14 / 06/ 2015

 By Marcela Brown

Cansada de sofrer à beira da Internet, a hiponcondríaca cibernética decidiu ir ao médico e implorar por um tratamento eficaz para tantas intempéries.

 

– Doutor, estou bastante doente.

– O que você sente?

– Palpitações no peito, dormência nas mãos e pés, tonturas. É sopro no coração.

– Você mesma se diagnosticou?

– Não, pesquisei no Google. Também estou com hipotireoide. Unhas e cabelos fracos, ganho de peso, fadiga em excesso.

– Você chegou a fazer algum exame de sangue que comprove essa dedução?

– Não, mas os sintomas batem com os do Google. Não é dedução, é lógica.

– Fale mais sobre isso.

– Dor de cabeça, visão embaçada, apagões.

– Apagões?

– Sim, quando fica tudo preto de repente. Depois volta ao normal. Rompantes de enxaqueca com aura.

– Você também tem enxaqueca com aura?

– Sim. Primeiro suspeitei de aneurisma cerebral, mas consultando daqui e dali descobri que estava enganada.

– Consultando médicos?

– Não, o Google.

– Vamos fazer alguns exames, mas aparentemente seu quadro é psicossomático.

– Vocês médicos e essa mania de psicossomático. Eu estou em frangalhos, doutor.

– É estafa. Você vive na gandaia. Só almoça em franquias fast food, exagera na bebida. O que você chama de apagão, eu chamo de embriaguez. Para cada desilusão amorosa, um pote de sorvete. Cinco tentativas de largar o cigarro frustradas pela ansiedade de engordar. A balada com as amigas prejudica seu trabalho, é uma bola de neve. Aliás, convenhamos, a Carlinha não é uma boa companhia, ela induz você aos maus hábitos.

– Doutor, como você sabe de tudo isso?

– Sua timeline no face é de arrepiar. Achei você no Google.

 

 

 

[texto originalmente publicado pela autora na coluna de Opinião do Jornal NH]

Manual de bolso: 10 dicas práticas sobre o Pedro

03 / 06/ 2015

 By Marcela Brown

Minha mãe resolveu levar o netinho para praia nesse tal de feriadão. Evidente que, no pacote, surrupiou minha funcionária doméstica para eventuais necessidades litorâneas, ou seja, todas. Avaliado o custo-benefício frente à atual conjuntura – dois artigos de Direito para redigir mais duas provas em meio a 15 horas de trabalho por dia e à TPM iminente –, achei por bem aceitar de bom grado e enviar na mochila do piá um roteiro prático para fins de zelo extra – tendo em vista os últimos acontecimentos, sobre os quais a inocente avó ainda não tomara conhecimento.

 

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Antes de despachar o prefeito do minimundo, li as instruções em voz alta:

 

– Mãe, obrigada pela disponibilidade. Favor atentar para os tópicos a seguir.

 

1 – Instantes de silêncio podem ser tão agradáveis quanto perigosos. Se o Pedro ficar mais de 30 segundos sem falar ou fazer perguntas, favor checar se ele não está comendo creme dental escondido no banheiro. Às vezes ele opta por lamber sabonete também, nutrindo clara predileção pelo lifebuoy vermelho.

2 – Para aquela “visitinha” ao vaso, geralmente vespertina, gentileza entregar ao Pedro um gibi da Mônica, o livro falante do Pinóquio e uma revista de arquitetura e decoração que contenha mesas de sinuca (pode ser qualquer uma, desde que tenha mesa de sinuca). Envio na mochila o gibi e o livrinho. A revista fico devendo porque ele depositou a dita-cuja no vaso após o término de… bom, deixa essa parte pra lá. Enfim, a revista sofreu perda total.

3 – Antes de dormir, verifica se na tua cama não tem baralho espalhado debaixo das cobertas e, por vezes, resquícios de massinha de modelar ou pedrinhas colecionáveis. Eu não sei como, mas a operação-cobertas é administrada sem que a gente perceba.

4 – Por falar em baralho, ele tem permissão para jogar paciência spider no computador por 10 minutos após o almoço. Mas tem que ser a estampa de carta arabesca vermelha e o fundo verde com folhas de natureza. Para começar. Depois ele pede pra mudar a aparência do jogo aproximadamente 100 vezes. Em 10 minutos.

5 – Importante SEMPRE checar os bolsos do Pedro. Ele recolhe tudo das ruas: caroço de pêssego, pedrinhas, bichinho morto, areia (e na praia tem muita areia) e folhinhas de toda espécie. E tem um apego especial por cada um dos itens, evidentemente todos garimpados com o devido esmero.  

6 – Caso o banho seja na banheira, importante supervisionar a cada 5 segundos, especialmente levando em consideração que ontem mesmo ele usou o copo de enxaguar para beber sem parcimônia ou cerimônia mais ou menos uns três litros de água com xampu e sabão. Ainda nessa questão, meu filho é tipo um labrador, não pode ver água na frente dele. Isso inclui a água do vaso, poças de lama (sabe a Peppa Pig?) e torneiras em geral.

7 – Ele é ladino, faz perguntas inteligentes e indecorosas. Hoje perguntou se quando fosse adulto eu iria abandoná-lo. Respondi que não, desde que ele não escondesse mais meu dinheiro dentro da impressora.

8 – Cuidado com tudo que tu fala na frente dele, ele dissimula descaso mas é um fofoqueiro nato. No final de semana contou pra toda família da minha sogra que o pai dele me chama de Fiona porque eu como muito. Imagina quando ele observar tudo o que tu come.

9 – Por volta das 8 horas da manhã, se tu ainda estiver dormindo, recomenda-se o uso de capacete. É mais ou menos nessa hora que ele sai da cama dele e pula em cima da gente para dar bom dia, como se a gente fosse um colchão inflável. Esquece aquela utopia de comercial de leite em pó em que filho acorda serenamente e vai pé por pé dar um beijinho suave no nariz da mãe para convidar para o café.

10 – Se for avistada uma ponta de papel higiênico em algum canto da casa, não desdenhe. Siga as pistas milimetricamente que tu vai ver o estrago. Provavelmente nesse momento o Pedro já vai ter arrastado o rolo pela casa inteira e estará escondido atrás da cortina da sala. Mas, anime-se: talvez ele ainda não tenha começado a picar tudo pra fazer chuvinha.

 

 – Bom, se eu lembrar de mais alguma coisa te ligo, tá? Te comporta com a vovó, viu filhinho? Liga pra mim todos os dias. Ôoo manhê, onde tu vai? E o Pedro? Mãe, sério. Volta aqui! Mãaaaae!

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