MODA

ACESSÓRIO

BEAUTÉ

LIFESTYLE

BLOGS

MARGOT STREET

Sobre falantes anônimos e outras gralhas maníacas

Instagram

04 / 09/ 2015: 

 By Marcela Brown

Cumpre debruçar-se sobre o orador compulsivo. Em todos os meandros, caberia investigar sua intensa necessidade de expressão e inesgotável cacoete retórico. Há que se classificar as gralhas maníacas. Sobre cada uma delas recaem características indeléveis de sua persona, cuja inclinação comunicacional é tão explícita que monopoliza sobremodo até o receptor mais disperso e desinteressado.

 

Tal qual descreveu Woody Allen em uma de suas pérolas, a ansiedade é passível de gasto calórico: a criatura é capaz de per¬der peso com seu próprio conversê. Mentalize um círculo de falantes. O parlatório possivelmente será composto por um atento narrador da vida alheia (vulgo fofoqueiro), um orador neurastênico frente à existência e um indivíduo portador de desarranjo verbal – o papo começa na fila do supermercado, vai para a doença da tia e termina com uma conspiração na Casa Branca.
Em rara ocasião dos tempos de colégio, no lugar de me mandar calar a boca, um professor declarou que os inteligentes falam apenas 10% do que pensam. Malgrado minha burrice, passei a nutrir verdadeira admiração por pessoas taciturnas ou peremptoriamente ouvintes. Subjacente ao monólogo decretado pelo falante, paira este rastreador atento das palavras, disposto a concatenar com parcimônia a avalanche informacional que ali se instaurou. Com relativa frequência, me coloco a observar cientificamente espaços disputados por mais de um falador. Lembra rinha de galo. Se o grupo for composto por mulheres, então o ambiente passa a tanger as raias do apocalíptico.

 

Minha mãe costuma dizer que depois que aprendi a falar, nunca mais parei. Tento me desvencilhar de rótulos e, em alguma medida, me agarrar às oportunidades em que basta dizer o indispensável, exercitando os 10%. Uma amiga que também sofre da síndrome do rádio-poste confessou que se matricularia nos FA (Falantes Anônimos). Com demasiada sofreguidão, eu encararia um curso de “escutatória”. Fazer o quê? A língua é o chicote da alma: atire a primeira pedra quem nunca deu uma de peixe e morreu pela boca.

 

 

Texto originalmente publicado pela autora Marcela Brown na coluna de opinião do Jornal NH, em agosto de 2010.

 

 





SEJA NOSSA AMIGA!

FAÇA O CADASTRO NA TUA REVISTA DIGITAL FAVORITA E FIQUE POR DENTRO DE TODAS AS NOVIDADES E SORTEIOS!


Instagram

Comentários

0

Você vai gostar também:

topo

NÃO, OBRIGADO.