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A gente não tem cara de panaca

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03 / 06/ 2016: 

 By Marcela Brown

 

Por alguma razão obscura, ou melhor, por várias razões obscuras, já tem um tempo que me tornei um ser apolítico. Cansei de argumentar e, principalmente, cansei de argumentos alheios – e de toda espécie, diga-se –, especialmente lendo arremedos de discursos extraídos diretamente do que hoje é a força motriz da sabedoria política do nosso país: a timeline da rede social. Era de esperar que a contemporaneidade sucumbisse sem parcimônias à informação digital, a rótulos que às vezes soam até bestiais e ao plano da aquisição do conhecimento rasteiro, mas só posso concluir que nunca lemos e estudamos tão pouco e, paradoxalmente, nunca opinamos tanto – assim como nunca tivemos tanta necessidade de publicitar nossas impressões – sobre assuntos cujo entendimento nos escapa ou foi francamente plagiado ou compartilhado do perfil do amigo cibernético que faz as vezes de cientista político confiável.

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Nota: quando falo sobre estudar não me refiro ao mero ato de frequentar uma universidade ou escola. Outra coisa. Sempre digo que se opinião fosse algo bom, ninguém dava de graça. Que opinião é como bunda: todo mundo tem, nem por isso precisa sair por aí mostrando. Mas não sou termômetro pra nada: sou chata, minha tolerância é uma nulidade, envelheci precocemente e sofro de TPM crônica em altíssimos níveis. Além disso, vamos combinar: incomodados que se retirem, não é mesmo? No caso, eu. Então que fique bem claro que não regozijo-me desses dissabores, eu adoraria ser a Pollyana da rede social, fazendo o jogo do contente. E, verdade seja dita, eu celebro (e todos nós deveríamos celebrar), a liberdade de expressão, a possibilidade de levar à arena virtual anseios políticos, seja em qual lado você prefira se posicionar, sejam quais forem suas convicções. O primeiro problema é que, via de regra, o brasileiro leva tudo muito para o lado pessoal e as discussões acerca dos “rumos da nação” convertem-se em qualquer coisa menos em um debate sério e frutífero. O segundo problema é que em plena era da informação instantânea, somos uma geração de desinformados, escapistas e mediadores fugazes.

 

Palavras ditas voam ao vento, palavras escritas ficam: à luz do facebook, o clima beligerante de conflagração geral e universal que o Brasil vive hoje, por vezes menos ou mais intensamente, é o espelho das disputas acirradas e discussões exacerbadas em função do clima absolutamente hostil no meio político social. Por isso venho me limitando a observar, a resguardar meus pensamentos e a tentar compreender (ao menos em alguma medida) esse panorama que divide todas as águas da história do nosso “país”. Mas, há uma semana, algo despertou em mim e, por estranho que pareça, a epifania ocorreu ao final do show da Maria Rita, em Porto Alegre. A imortal É, de Gonzaguinha, foi uma das derradeiras canções interpretadas pela filha de Elis Regina no espetáculo Samba da Maria e assisti de camarote a um Araújo Vianna lotado, público em pé, bradando pelo mesmo propósito, em uníssono:

[…]

É
a gente não tem cara de panaca
a gente não tem jeito de babaca
a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela

É

a gente quer viver pleno direito
a gente quer é ter todo respeito
a gente quer viver numa nação
a gente quer é ser um cidadão

 

Feito passe de mágica, para mim tudo se recompôs na esfera da arte. Porque é na orbe da beleza que talvez as coisas de fato se reunifiquem. Cidadãos de direito, sendo estes ou aqueles prós ou contras isso ou aquilo, nas vias de fato, estão juntos almejando algo melhor, dando a cara à tapa, tirando satisfação, trazendo questionamentos à tona. Neste bizarro 2016, logo que o circo começou a incendiar e a nós, eleitores, foi concedida a alegoria oficial do palhaço, alguém tuitou que fazer piada sobre o Brasil no meio dessa crise é como tocar violino enquanto o Titanic está afundando. Lembrei disso no momento em que cantávamos É com tanta raiva e vontade: para o bem, ou para o mal, estamos todos no mesmo barco. Ou no mesmo circo.

 

 

Foto e vídeo: Acervo Margot Magazine

 



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Comentários

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5 comentários em “A gente não tem cara de panaca”

  1. Tuani Mallmann disse:

    Ma, adoro teus textos!
    São de uma sobriedade incrível, um pouquinho de reflexão nessa vida loka sempre faz bem.
    Escreva mais e mais, please!

  2. paulo bassi disse:

    Artigo de jornalista grande.
    Fica claro no escopo do texto que a jornalista, embora se equilibre para se manter isenta de matiz ideológico, não é de direta ao citar a filha da Elis e o Gonzaguinha sempre atual.

    Fui

    Paulo Bassi

  3. Francisco Luz disse:

    Que baita texto, Brown.

  4. helena disse:

    diferente de tudo que lemos por aí , Marcela consegue ao mesmo tempo ser singular na sua opinião e totalmente complexa na forma de escrever, com palavras tiradas sabem se lá da onde ela descreve o momento atual que vivemos na politica brasileira contemplando ao mesmo tempo a falta de saber e arte misturando tudo num contexto pouco , mas bem pouco tradicional,parabéns mil vezes para esta jornalista, escritora e quase advogada !

  5. Escreva mais e mais e sempre! ♥♥♥

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