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Novo Hamburgo: sobre lugares-comuns

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16 / 02/ 2016 em: 

 Margot na TPM ; By Marcela Brown

Prólogo: Eu adoro quando estou fuçando em pastas obscuras do meu computer e dou de cara meus próprios textos velhos. Esta foi minha estreia como colunista de opinião no Jornal NH. O artigo foi publicado há quase seis anos, mas ainda é muito eu. Tanto mais que agora sou mãe. Aí vai!

😉

 

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Meu passaporte para o mundo: Pedro aos 11 meses, em 2012

 

Decidi deixar Novo Hamburgo há cerca de uma década. A única certeza era a de que este lugar não me pertencia – e vice-versa. Foram projetos nada tímidos: encaminhar o Green Card (sou filha de norte-america­no e, tecnicamente, isso, sim, me pertencia), me mandar para tão longe quanto possível e, por fim, mudar o mundo de alguma for­ma ou construir algo que fizesse a diferença.

 

Com 20 anos, arquiteta da própria sina, senhora do seu amanhã, o “fenômeno” aqui concluiu que precisaria de dinheiro. Após a faculdade, tornei-me jornalista com cer­to desapego, até que o exercício da profis­são me seduziu. Ateia convicta, disposta a pôr uma mochila nas costas e viajar à deri­va, fui batizada e casei na igreja aos 25. De véu e grinalda, com pompa e circunstân­cia. Comprei apê, fixei residência. Quan­do vierem os filhos, terei completado a lis­ta de tudo que outrora pretendi renunciar.

 

Não raro, topo com seres perplexos a in­dagar tais escolhas. Vá explicar. De tão pisa­da, a fórmula soa rasteira: a moça desprendi­da apaixona-se pelo carinha da “facul”, envolve-se com o emprego, descobre Deus, surpreende-se afeiçoada à fa­mília e aos amigos que lhe são caros e moram, adivinhe onde? Em Novo Hamburgo, habi­tat cativo. A simplicidade é complexa an­te o julgamento alheio. É que sentimentos são feitos para sentir – se pudesse descre­vê-los, eu seria Dostoiévski. Sou tachada de provinciana, conquanto tenha embarca­do na mais descomunal das aventuras: ab­diquei da segurança de navegar, como su­geriu Fernando Pessoa, e me permiti viver. Nadei na contracorrente do que vislum­brara, assumi os riscos de ficar, permane­cer, estar e fazer check-ups regularmente.

 

Na adolescência, ao desejar a intensida­de, premeditei passos pelo avesso. Adul­ta, ao trilhar o lugar-comum – a enfado­nha tríade estudos, casamento e trabalho –, me vejo rodeada de desafios bem mais instigantes, satisfatórios e palpáveis. Exis­tenciais, talvez. O tempo dirá se fiz algu­ma diferença. Meu passaporte expirou. Na certa, não conseguirei mudar o mundo. Ti­ve sorte: o mundo conseguiu me mudar.

 

Foto: Neca Carrasco

*Texto originalmente publicado na coluna de opinião do Jornal NH no dia 31 de julho de 2010.

 

 

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Comentários

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2 comentários em “Novo Hamburgo: sobre lugares-comuns”

  1. Fê Amado disse:

    Amei reler e óoinnn pro Pedro! ♥

  2. Cristina disse:

    Adorei o texto!!!! 🙂

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